O espírito de Dury (sex & drugs & rock & roll)

Estreou em 8 de janeiro o filme que conta a história do pai da expressão “sexo, drogas e rock&roll” (se não pai ‘biológico’, ao menos foi ele quem popularizou o termo) Ian Dury, uma figura sem pares na história do rock. No filme Dury é interpretado pelo ator Andi Serkis (exato, ele mesmo, o Gollum) que procura mostrar a trajetória dessa criança com poliomielite, astro do rock tardio e que veio a transformar-se em um dos maiores artistas da Inglaterra no século XX.
Pessoalmente conheci o velho Dury em 2000, ano que esse cara todo torto e estranho deixou nosso ‘plano material’ e foi fazer jams com o Zappa em algum boteco etéreo. Lembro que vi de relance uma reportagem na tv, da qual guardei as imagens de um cara sequelado, com o corpo completamente tapado, chapéu e luvas, nem um pouco parecido com outro rocker qualquer…acontece que Dury nunca foi um qualquer! O fato mesmo de haver citado o Zappa anteriormente também não é mero acaso (poderia lembrar também do Pete Townshend, Syd Barret, Brian Wilson…), ambos são peças únicas nesse quebra-cabeças do rock. Também não foi ao acaso que chamei Dury de ‘velho’, sim, sua primeira banda, Kilburn & the High Roads, foi formada em 1970 quando ele tinha 28 anos e o primeiro sucesso só aconteceu aos 35, algo bem pouco comum ainda hoje em uma indústria acostumada em pré-fabricar conceitos de sucesso. Além da idade Dury tinha o corpo deformado em função da poliomielite, era baixinho, cabeçudo e se apresentava vestido com longas roupas, luvas pretas e cachecol no pescoço. Ele praticamente não se movimentava no palco, deixando toda a expressividade para seu olhar irônico e transformando cada show em uma visão totalmente excêntrica e inesperada.

Após seu primeiro sucesso com o single “Sex & Drugs & Rock & Roll” a banda assume o nome “Ian Dury and the Blockheads” chegando ao auge da carreira vendendo centenas de milhares de cópias na Inglaterra e emplacando várias músicas nas paradas inglesas. Em 1978 é lançado o disco “Do it Yourself” outro marco na carreira da banda. Porém o sucesso não foi repetido durante os anos 80, em grande parte pela saída do guitarrista Chaz Jankel, o que levou ao fim dos Blockheads.
Entre um e outro experimento musical, como o disco “4000 Weeks Holiday”, Dury decide deixar de lado o estúdio e passa a se dedicar ao cinema. Seu primeiro trabalho expressivo foi em “King of the Ghetto” da BBC, além disso participou com pequenos papéis em vários filmes incluindo “Pirates” de Roman Polanski, “Hearts of Fire” filme estrelado por ninguém menos que Bob Dylan, “Bearskin: An Urban Fairytale” onde contracena com Tom Waits e a adaptação dos quadrinhos “Judge Dredd” com Sylvester Stallone. Na mesma época Dury escreveu o musical Apples, realizado no London´s Royal Court Theatre, e mais tarde também participou da produção do filme “The Crow: City of Angels” a sequência do filme cult “The Crow” com Brandon Lee, no mesmo ano (1996) em que foi diagnosticado o câncer que viria a ser a causa de sua morte. Dury foi dos primeiros artistas da “era AIDS” a chamar atenção para o até então desconhecido “sexo seguro”. Tornou-se embaixador da UNICEF e junto com figuras como Robbie Williams promoveu várias campanhas humanitárias incluindo a vacinação contra a
poliomielite em muitos países ao redor do globo.

A morte de Dury foi falsamente anunciada em 1998 na rádio XFM por Bob Geldof, mas tratava-se de um boato proveniente de ouvintes. A última apresentação banda Ian Dury & The Blockheads foi um show beneficente em favor de uma fundação de combate ao câncer. Na época Dury estava visivelmente debilitado e teve de ser ajudado no palco. Sua morte ocorreu em 27 de março de 2000, aos 57 anos. Como afirmou o The Guardian na época, foi o fim de “um dos poucos artistas realmente originais da música Inglesa”. Passada uma década a vida de Dury ainda inspira muitos, incluindo seu próprio filho Baxter Dury, também cantor. Além do filme que estreou em janeiro deste ano, em 2009 um musical sobre sua vida intitulado “Hit Me! The Life & Rhymes of Ian Dury” foi apresentado no Leicester Square Theatre em Londres. O espírito de Dury continua vivo, basta lembrar sua fala em uma de suas últimas entrevistas “Meu medico disse que 51% da luta contra o câncer vem do seu espírito. Eu quis abraçar outras pessoas que enfrentavam o mesmo problema. Eu tenho 56 anos e provavelmente sou mais alegre e divertido que as pessoas da minha idade. Eu considero o trabalho como uma distração. É muito melhor do que ficar em casa sentado, mórbido, esperando o fim. Eu sempre me senti uma pessoa de muita sorte na vida, jamais reclamei dos meus problemas. Perdi minha primeira companheira e quando descobriram que eu tinha essa doença tive a sorte de conhecer Sophy. A única coisa que me entristece é saber que não poderei ver meus filhos pequenos crescerem. E eu não me importo se serei lembrado ou esquecido quando morrer, eu quero apenas viver.”
E que tenha longa vida, sempre!



















